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Mostrando postagens com marcador Luciana Leitão. Mostrar todas as postagens
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Tínhamos 15 anos e uma amizade cinzenta, cor de chumbo derretido.

Não me lembro de como nos tornamos amigas; lembro apenas que, tanto ela quanto eu, nunca éramos convidadas para os jogos durante o intervalo e, muito menos, para as festas das meninas mais populares do colégio.

Acho que nos tornamos amigas por não ter outra opção.

Fato é que ela era minha única amiga e por isso o título de ‘melhor amiga’ era dela.
Apesar de sermos opostas em quase todas as áreas, juntas, aprendemos o respeito e a dedicação que uma amizade exigia.

Foram praticamente quatro anos de amizade aprendida; amizade que precisava se fazer conquistada.
No quarto ano, nossa amizade começou a criar traços mais leves e cores mais bonitas mas, mesmo assim,  teve um fim.
O que aconteceu?

Bem, eu mudei.
Mudei de turno.
Comecei a trabalhar e isso me levou a outros caminhos.
Percebi que nossa amizade não tinha apenas cor de chumbo, mas também era feita de papelão. 
Choveu distância e pronto: a amizade desbotou, rasgou, virou nada!

Se foi a mudança que tive ou a ‘não mudança’ dela que nos fez distantes, não sei.
Mas sei que sinto falta dela.
Sinto falta das risadas durante o intervalo e dos passeios até a biblioteca.
Ela era ótima aluna e nossas notas eram motivo de muita competição.
 Não era uma competição rude ou ciumenta, era competição divertida: ela sempre ganhava em matemática e eu sempre vencia em filosofia.
Sinto saudade. Dela. Dela e de inúmeras pessoas que passaram pela minha vida. 

Pessoas de alma e pessoas possuídas pela ambição.
Pessoas de tamanhos diferentes e com a alma do tamanho do mundo.
Pessoas que jamais dividiam um chocolate e, outras, que sonhavam em dividir uma vida.

Inúmeros contrastes, múltiplas diferenças, mas sempre pessoas.
Ano passado fiquei sabendo que o pai dela morreu. Fiquei sem rumo.
Minha amiga perdeu o pai eu não estava lá.
Me sinto culpada.
Tentei de algumas maneiras entrar em contato.  
Não consegui.
Doeu mais ainda.

Minha amizade cor de chumbo me ensinou que a gente nunca sabe quando será o último dia, quando os passos irão se desencontrar, quando seremos assaltados pela vida ou levados pela distancia.
Se eu pudesse voltar atrás, deixaria minha amizade um ou dois tons mais clara.
Falaria mais vezes o quanto seus conselhos eram importantes e não pouparia nem um abraço sequer.

Perdoaria mais vezes e mais rápido.
Me importaria menos com as notas e mais com os intervalos.
Falaria mais sobre aquele moço estranho que ela paquerava e até bancaria a cupido.

Essa foi a única amizade cor de chumbo que tive.
 Hoje tenho amizades verdes, azuis e brancas e devo isso a ela, à pessoa que me ensinou a ser amiga.
É uma pena que ela nem desconfie disso.


 Luciana Leitão



      
 


Como sou nova aqui no blog, sei que muitos ainda não conhecem minha história.

 Pois bem, para resumir, em Julho de 2011 sofri um acidente de moto tão grave que estar viva pode ser considerado um milagre.

Esse acidente me deixou limitada e roubou minha rotina. Perdi a faculdade, o emprego e todos os planos que tinha para este ano que, daqui a pouco, vai acabar.

 Embora tenha sido um ano de dor, confesso que foi um tempo rico de significado e fé.
Fiz, para mim, algumas anotações sobre o que Deus me ensinou nesse período e escolhi, com cuidado, três lições para compartilhar com vocês. Aqui estão:

-Aprendi que caminhar com Deus não nos priva das dificuldades, mas somente Sua Presença nos ampara, consola e fortifica. E isso faz toda diferença;

-Aprendi que as tempestades, por mais fortes que sejam, passam e que nenhuma dor é pra sempre;

-E, por fim, aprendi que, com Deus, podemos florescer em todas as estações, inclusive nos rigorosos invernos da alma.

  Minha prece para 2012 não é por um ano perfeito, mas para que a presença de Deus seja constante e que meu coração continue aprendiz.

Que Deus nos de um ano repleto de significado e beleza.



Todo mundo tem um borrão na alma.
Não importa o passado que tenha tido, há sempre um pedaço rabiscado,
mal feito, cheio de sombras.

Eu estava lá quando mancharam a alma da menina.
O nome dela?
Sara.

Sara tem um sobrenome que não lembro, não é de família importante.
Também não é ’Silva’.

Aconteceu numa tarde em que o sol e o frio disputavam o mesmo espaço.
O ano era mil novecentos e alguma coisa, não lembro bem.
Alias, não lembro de um monte de coisa e por esse motivo este texto será cheio de ‘não sei’.

A menina estudava no mesmo andar da biblioteca.

Triiiimmmmmmmm _ tocou o sinal.

Irritante, por sinal!
Detestava aquele som agudo mais do que detestava os números!!!

O chão era de madeira, madeira velha, coisa de escola centenária.
Ouvia uma multidão de passos apressados, passos e mais passos,
todos juntos.

Guardei o livro para descer.
Entre a escada e a biblioteca, estava a classe de Sara.

Pobre Sara.

A pequena multidão com cadernos nas mãos desaceleraram os passos.
Ouvia risos abafados e olhares de cumplicidade entre eles.
Algo estava para acontecer.
A gente percebe quando há um ar de ‘coisa nova por acontecer’ , ainda mais no colégio, onde essas coisas ficam ainda mais grossas e ásperas que o normal.

Me fiz mistura entre eles.

O local onde a pequena multidão se instalara era em frente à sala de Sara.

-O que havia ali, afinal?_questionava-me.

Quase todos da sala saíram, menos quem a pequena multidão queria.
Esperaram.
Esperaram um pouco só, menos de um minuto e meio.
Não estou bem certa se o tempo foi esse, nessas horas a alma da gente não sabe contar.

-Sara! Sara! Tem gente querendo falar com você!!! _disse uma moça feia de olhos azuis.
Sim, era feia, apesar dos olhos azuis.

Apareceu Sara.

-Sara?! Sara não é nome de princesa? Quem teve coragem de dar esse nome a essa menina? Céus!!! _exclamei na alma.
Era muito contraste!
nome e a menina.
Sara não era apenas feia, era também muito desengonçada.

Seus cabelos eram longos e ondulados, seriam perfeitos se não fossem tão armados.
Tinha olheiras arroxeadas em volta dos olhos, sorte dela que tinha olhos claros, afinal, a natureza também tem suas atitudes de misericórdia.
E por fim, era gorda.

GOR-DA!

Engraçado como essa palavra parece palavrão, né?
Quando a gente fala ela, da impressão de ter cometido pecado.

Sara chegou com um sorriso no rosto.
Um daqueles sorrisos que a gente,
entrega de presente a um amigo.

Dezenas de olhos sobre a menina.

A pequena multidão não disfarçou, encarou Sara como se quisesse devorar toda alegria que ela possuía.
Sara guardou o sorriso no bolso e deslizou os olhos entre aqueles que a rodeavam.

Os olhos de Sara gritavam por resposta.

Silêncio.
Pequenos estalos de risos contidos.


Ela era a piada, mas qual piada?
Ninguém a contara ainda.

Surgiu da pequena multidão um moço.
Vou descrevê-lo, embora a lembrança de sua atitude me causenáuseas.

Alto, cabelo escorrido.
Olhos castanhos, cabelo escorrido.
Lábios finos, cabelo escorrido.
Tinha cabelo escorrido e ar de quem gostava de maldade.

Desculpe a redundância na descrição,
mas foi assim que minha alma o fotografou.

Os olhos dele passaram pela pequena multidão sorrindo e pedindo atenção.

Silêncio de novo.

De alguma maneira todos sabiam que era para fazer silêncio,
o menino de cabelo escorrido iria falar.

Aqueles olhos castanhos do menino caíram sobre a pequena Sara deslizando do rosto para o pescoço, barriga, quadril, até chegar aos pés e fez, vagarosamente, o caminho de retorno.

Naquele momento tudo que se ouvia era
o silêncio e o coração de Sara.

Tum tum. Tum tum. Tum tum.

O menino do cabelo escorrido quebrou o silêncio,
como quem quebrara um ovo a marteladas.

-Sara? É este teu nome? Já sabes o quanto és feia?! _ disse o menino rindo-se.

Sara manteve seus olhos sobre ele, não recuou o olhar, nem tão pouco corou sua face.
Correu os olhos pela pequena multidão.
Um a um, até todos saírem.

A pequena multidão saiu rindo, feliz.
A alegria contida na tristeza 'do outro' nunca fora tão visível para mim.

-Que culpa Sara tem de ser feia?! _perguntei para a Vida.
Não tive resposta.
A Vida sempre deixa as perguntas mais difíceis sem resposta.

Aquela tarde se partiu, e outras tardes também,
mas a imagem de Sara não.
Não a encontrei pelos corredores, nem na biblioteca.
Não a via em lugar algum.

A vi depois de três meses, no banheiro.
Seu cabelo armado estava preso no alto da cabeça e seus olhos estavam fixos em suas próprias mãos enquanto as lavava.
Em nenhum momento Sara se olhou no espelho.

Quando ergueu os olhos notei que eram os mesmos.
Nem altos,
nem baixos.

Olhar de quem desconfia da vida mas que esta disposta a arriscar.

-Como pode? Sara encarava a vida, o desconhecido e a ironia,
mas não ousava olhar-se no espelho?

-Aposto que nem sabe a cor que seus olhos tem! _pensei

Ao passar por mim Sara sorriu:

-Boa tarde._disse ela.
E seguiu rumo à porta.

Queria lhe dizer milhões de coisas.
Pedir perdão por estar na 'pequena multidão'.
Dizer a ela para não se importar com as palavras do menino de cabelo escorrido.
Mas não disse.

Quando Sara estava abrindo a porta a única coisa que saiu foi:

-Moça! _disse eu no mesmo tempo em que pensava no que iria dizer depois disso.
Ela se voltou para mim e respondeu com um sorriso:
-Oi?-Queria te pedir perdão eu estava lá quand...
-Eu sei, eu a vi, tudo bem..._respondeu ela com um sorriso de quem conhece o perdão.
-Lizzie. Meu nome é Lizzie.
-Sara, prazer._respondeu com sorriso nos olhos.

Éramos estranhas e ao mesmo tempo tão iguais.

Existem coisas na vida que a gente não explica.

-Tenho que ir, Lizzie, boa aula para você.
-Sara!
-Oi?
-Você tem um sorriso lindo!_disse com sinceridade.
-Obrigada._sorriu como quem não está acostumada com elogios.




Ela parecia reagir com mais naturalidade a um insulto do que a um elogio.
Havia um abismo de distancia entre nós, mas éramos feitas do mesmo material.

Conhecer Sara foi um aprendizado, foi ela
quem me ensinou que 
é preciso encarar a vida mesmo quando se tem manchas imensas na alma.


"Perto está o Senhor dos que tem o coração quebrantado."   Sl 34:18
                                                                                                              Luciana Leitão (@rabiscosdalu)

 
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